A triagem hospitalar é uma das etapas mais importantes no atendimento em serviços de urgência e emergência. Em ambientes onde minutos podem definir desfechos clínicos, organizar o fluxo de pacientes de forma rápida e segura se tornou uma necessidade operacional e assistencial.
Um estudo publicado na Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences por Isabelle Teixeira Zambrzycki, Vitória Oliveira Souza e colaboradores analisou justamente o impacto dos protocolos de classificação de risco na eficiência do atendimento emergencial.
O artigo, intitulado “O papel crucial da triagem e classificação de risco: otimizando o atendimento em cenários de urgência e emergência”, avaliou principalmente o Protocolo de Manchester e o Método START em serviços de saúde brasileiros.
Segundo os autores, protocolos estruturados ajudam a identificar rapidamente pacientes em condições graves, reduzem o tempo de espera, melhoram a gestão de recursos e contribuem para melhores resultados clínicos.
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Triagem hospitalar: entenda o conceito
A triagem hospitalar é o processo de avaliação inicial realizado logo na chegada do paciente ao serviço de saúde.
O principal objetivo é identificar o grau de urgência de cada caso para definir prioridades de atendimento.
Diferentemente da lógica de ordem de chegada, a triagem hospitalar prioriza gravidade clínica. Isso significa que pacientes com maior risco de deterioração recebem atendimento antes, mesmo que tenham chegado depois.
Na prática, a triagem considera fatores como:
- comprometimento respiratório ou circulatório;
- condições clínicas associadas;
- sintomas apresentados;
- mecanismos de trauma;
- nível de consciência;
- risco de morte;
- sinais vitais; e
- dor.
Esse processo costuma ser conduzido por enfermeiros capacitados, utilizando protocolos padronizados que ajudam a reduzir subjetividades e aumentar a segurança assistencial.
Além da organização do fluxo, a triagem hospitalar também exerce papel estratégico na redução de superlotação, na otimização de equipes e na melhoria da experiência do paciente.
Benefícios da triagem hospitalar
O estudo destaca que os protocolos de classificação de risco vêm demonstrando impacto significativo na organização dos serviços de urgência e emergência.
Entre os principais benefícios da triagem hospitalar, destacamos:
Melhora da eficiência do atendimento
A padronização dos critérios de avaliação permite decisões mais rápidas e objetivas.
Isso reduz gargalos no acolhimento e agiliza o encaminhamento dos pacientes para os setores adequados.
Quando a equipe consegue identificar rapidamente casos graves, o serviço ganha capacidade operacional e reduz atrasos críticos.
Redução do tempo de espera
Pacientes com maior gravidade são atendidos mais rapidamente, enquanto casos menos urgentes podem aguardar de forma segura e organizada.
Essa dinâmica reduz filas desnecessárias para situações críticas e melhora o fluxo geral da emergência.
Otimização da gestão de recursos
A triagem hospitalar também funciona como ferramenta de gestão. Os protocolos auxiliam na distribuição adequada de profissionais, leitos, equipamentos e insumos conforme a gravidade dos casos atendidos.
Em cenários de alta demanda, essa organização se torna indispensável para evitar colapso operacional.
Contribuição para a redução da mortalidade
Segundo os autores, a aplicação correta dos protocolos está associada à melhora dos desfechos clínicos e à redução da mortalidade em situações críticas.
O principal motivo é a identificação precoce de pacientes instáveis, permitindo intervenções mais rápidas.
Mais qualidade na experiência dos pacientes
Mesmo em contextos de espera, pacientes tendem a compreender melhor o fluxo quando há critérios claros de prioridade.
O estudo também destaca que a comunicação durante a triagem influencia diretamente a satisfação dos usuários e reduz conflitos nas unidades de emergência.
Protocolo de Manchester: conheça esse sistema de triagem
O Protocolo de Manchester é um dos sistemas de triagem hospitalar mais utilizados no Brasil e no mundo. Ele tem o objetivo de classificar pacientes conforme a urgência clínica, utilizando categorias representadas por cores.
De acordo com o artigo, o protocolo contribui para redução do tempo de espera, melhora do fluxo assistencial e uso mais eficiente dos recursos hospitalares.
O sistema organiza os pacientes em cinco níveis:
- Vermelho: atendimento imediato;
- Laranja: muito urgente (atendimento em até 10 minutos);
- Amarelo: urgente (atendimento em até 60 minutos);
- Verde: pouco urgente (atendimento em até 120 minutos);
- Azul: não urgente (atendimento em até 240 minutos).
Em algumas instituições, também pode existir a categoria branca, geralmente utilizada para casos administrativos, retornos ou demandas sem urgência clínica.
Passo a passo: veja como aplicar o Protocolo de Manchester
O Protocolo de Manchester pode ser aplicado a partir do seguinte passo a passo:
1º passo: realize o acolhimento inicial
O paciente chega ao serviço e é recebido pela equipe de triagem.
Nesse momento, são coletadas informações iniciais sobre sintomas, queixas e histórico clínico.
2º passo: avalie os sinais vitais
O profissional que está realizando o acolhimento necessita verificar os sinais vitais do paciente, tais como: aferição de pressão arterial, frequência cardíaca, saturação de oxigênio, frequência respiratória e temperatura corporal.
Essa etapa ajuda a identificar sinais de instabilidade clínica.
3º passo: identifique o fluxograma adequado
O protocolo utiliza diferentes fluxogramas conforme a principal queixa do paciente:
- alteração neurológica;
- dor abdominal;
- dor torácica;
- dispneia;
- cefaleia;
- trauma;
- febre;
- entre outros.
4º passo: aplique os discriminadores clínicos
Após selecionar o fluxograma, o profissional avalia critérios específicos chamados discriminadores.
Eles definem o nível de urgência do paciente.
Exemplos:
- sangramento ativo;
- febre persistente;
- sinais de sepse;
- inconsciência;
- dor intensa;
- choque;
- entre outros.
5º passo: defina a cor de prioridade
Com base nos discriminadores encontrados, o paciente recebe uma classificação por cor.
Essa categorização determina a prioridade e o tempo ideal de atendimento.
6º passo: encaminhe o paciente
Após a classificação, o paciente segue para:
- atendimento imediato;
- sala de observação;
- setor ambulatorial;
- reavaliação periódica; ou
- espera monitorada.
Sendo assim, deve-se verificar para onde a pessoa será encaminhada, conforme a classificação por cores.
7º passo: reavalie quando necessário
Pacientes em espera devem ser reavaliados regularmente, especialmente se houver mudança no quadro clínico.
Lembre-se: a classificação de risco não é estática.
Método START: triagem hospitalar em acidentes e situações de emergência
O Método START, sigla para Simple Triage and Rapid Treatment, é utilizado principalmente em desastres, acidentes com múltiplas vítimas e situações de emergência coletiva.
Aqui o foco é realizar uma triagem extremamente rápida para definir prioridades de atendimento em cenários com grande volume de pacientes.
Segundo o artigo, o método é eficaz por sua simplicidade e capacidade de organizar rapidamente as equipes de resgate.
O START utiliza critérios simples de:
- respiração;
- circulação; e
- estado neurológico.
A classificação também ocorre por cores:
- Vermelho: prioridade imediata. Vítimas com risco iminente de morte, mas com chance de sobrevivência se receberem atendimento rápido;
- Amarelo: prioridade tardia. Pacientes graves, porém estáveis no momento, que podem aguardar algum tempo sem risco imediato;
- Verde: prioridade mínima. Vítimas com ferimentos leves e capacidade de deambular;
- Preto: óbito, lesões incompatíveis com a vida ou pacientes sem possibilidade de sobrevivência imediata diante do cenário e dos recursos disponíveis.
Passo a passo: veja como aplicar o Método START
O Método START pode ser aplicado a partir do seguinte passo a passo:
1º passo: solicite que as vítimas capazes caminhem
O primeiro passo é pedir que todos que conseguem andar se desloquem para uma área segura.
Esses pacientes recebem inicialmente a classificação verde.
2º passo: avalie a respiração
Nas vítimas restantes, verifica-se se há respiração espontânea.
Após a análise, adote os seguintes critérios:
- Não respira: abertura imediata de vias aéreas;
- Continua sem respirar: classificação preta;
- Retorna a respirar: classificação vermelha.
3º passo: avalie a frequência respiratória
Se a frequência respiratória estiver acima de 30 incursões por minuto, o paciente recebe classificação vermelha.
4º passo: avalie a perfusão
Nessa etapa é realizada avaliação da circulação periférica:
- enchimento capilar;
- pulso radial;
- sinais de choque.
Alterações indicam prioridade imediata.
5º passo: avalie o estado mental
O profissional verifica se o paciente consegue obedecer a comandos simples.
Alterações neurológicas sugerem gravidade elevada.
6º passo: classifique por prioridades
Após a avaliação rápida, cada vítima recebe uma categoria de prioridade conforme a gravidade.
O objetivo não é diagnóstico detalhado, e sim organização rápida do atendimento.
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Como vimos, a rotina da urgência e emergência exige decisões rápidas, preparo técnico e equilíbrio emocional diante de cenários de alta pressão.
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