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Miomas uterinos: classificação FIGO e o sistema PALM-COEIN na prática

Saiba como a classificação FIGO e o sistema PALM-COEIN ajudam a diagnosticar miomas uterinos, investigar sangramentos e definir o tratamento ideal.

  • Ciência Aplicada

5 minutos

12 jun. 2026

miomas-uterinos

Os miomas uterinos estão entre as alterações ginecológicas mais frequentes na prática clínica e podem afetar milhões de mulheres ao longo da vida. 

Embora muitos casos sejam assintomáticos, essas lesões podem estar associadas a sangramento uterino anormal, dor pélvica, infertilidade e sintomas compressivos. 

Nesse cenário, compreender a localização dos miomas dentro do útero é fundamental para interpretar os sintomas e definir a melhor estratégia terapêutica. 

Para isso, duas ferramentas ganharam destaque na ginecologia moderna: a classificação FIGO dos leiomiomas e o sistema PALM-COEIN para investigação do sangramento uterino anormal. 

A seguir, entenda como essas classificações são aplicadas na prática clínica.

Leia também:

Miomas uterinos: o que são e os sintomas que causam

Os miomas uterinos, também chamados de leiomiomas, são tumores benignos originados das células musculares lisas do útero. 

Trata-se de uma das condições ginecológicas mais frequentes na prática clínica e de uma das principais causas de sangramento uterino anormal em mulheres em idade reprodutiva.

Segundo Helena Von Eye Corleta, Eunice Beatriz Martin Chaves, Edison Capp e Marcelle Jaeger Anzolch, no capítulo “Miomatose Uterina”, publicado na obra Rotinas em Ginecologia (Artmed, 2023) estudos de rastreamento ultrassonográfico identificam miomas em cerca de 51% das mulheres antes da menopausa, podendo atingir até 80% das mulheres negras e 70% das mulheres brancas ao longo da vida.

Uma doença comum na prática ginecológica

A miomatose uterina é uma doença hormônio-dependente. 

O desenvolvimento e o crescimento dos miomas estão relacionados à ação do estrogênio e da progesterona.

Inclusive, isso explica por que essas lesões são mais comuns durante a fase reprodutiva, podendo aumentar de tamanho na gestação e regredir após a menopausa.

Entre os principais fatores de risco para miomatose destacam-se:

  • Síndromes genéticas específicas;

  • Menarca precoce;

  • História familiar;

  • Nuliparidade;

  • Obesidade; e

  • Etnia negra.

Quando o mioma se torna um problema clínico

Embora muitos miomas uterinos sejam assintomáticos, alguns podem causar sintomas importantes e impactar significativamente a qualidade de vida.

Os principais incluem:

  • Compressão vesical ou intestinal;

  • Sangramento uterino anormal;

  • Sensação de peso abdominal;

  • Abortamento recorrente;

  • Dismenorreia;

  • Infertilidade;

  • Dor pélvica.

O tipo de sintoma costuma depender diretamente da localização do mioma, motivo pelo qual a classificação FIGO tornou-se uma ferramenta fundamental na prática ginecológica.

Como o sistema FIGO PALM-COEINorganiza as causas do sangramento uterino anormal

Uma das maiores contribuições da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) é o sistema PALM-COEIN, utilizado para padronizar a investigação do sangramento uterino anormal.

A classificação foi apresentada por Malcolm G. Munro e colaboradores no artigo FIGO Classification System (PALM-COEIN) for Causes of Abnormal Uterine Bleeding in Nongravid Women of Reproductive Age, publicado em 2011 no International Journal of Gynecology & Obstetrics.

O sistema divide as causas em dois grupos:

PALM – causas estruturais

As letras PALM representam alterações anatômicas identificáveis por exames de imagem ou anatomopatológicos:

  • P: pólipo;

  • A: adenomiose;

  • L: leiomioma;

  • M: malignidade e hiperplasia.

Nesse contexto, os miomas uterinos aparecem como uma das principais causas estruturais de sangramento uterino anormal.

COEIN: causas não estruturais

As letras COEIN contemplam:

  • C: coagulopatias;

  • O: distúrbios ovulatórios;

  • E: alterações endometriais;

  • I: causas iatrogênicas;

  • N: não classificadas.

Na prática clínica, o sistema PALM-COEIN ajuda o médico a organizar o raciocínio diagnóstico e direcionar a investigação de forma mais eficiente.

O papel da classificação FIGO na avaliação da miomatose uterina  

Embora o sistema PALM-COEIN identifique o leiomioma como uma possível causa do sangramento, ele não descreve onde o tumor está localizado.

Para preencher essa lacuna, a FIGO desenvolveu uma classificação específica para os miomas uterinos.

Essa classificação considera a relação do nódulo com:

  • O endométrio;

  • O miométrio; e

  • A serosa uterina.

A localização influencia diretamente os sintomas, o potencial impacto sobre a fertilidade e a escolha do tratamento.

Dentro desse contexto, os miomas, segundo a FIGO, classificam-se da seguinte forma:

Miomas submucosos

Os miomas submucosos são aqueles que se projetam em direção à cavidade uterina.

Tipo 0

Localizado completamente dentro da cavidade uterina e conectado ao endométrio por um pedículo.

Tipo 1

Possui menos de 50% do seu volume inserido no miométrio.

Tipo 2

Possui mais de 50% do volume dentro do miométrio.

Esses são os tipos mais associados ao sangramento uterino anormal, infertilidade e abortamento.

Tipo 3

O mioma toca o endométrio, mas não deforma a cavidade uterina.

Apesar de não ser propriamente submucoso, estudos demonstram que ele também pode interferir na fertilidade e contribuir para sintomas hemorrágicos.

Tipo 4

É o chamado mioma intramural puro.

Encontra-se completamente envolvido pelo miométrio, sem contato com o endométrio ou com a superfície externa do útero.

Dependendo do tamanho, pode estar associado a aumento do fluxo menstrual e dor pélvica.

Miomas subserosos

Projetam-se para a superfície externa do útero.

Tipo 5

Mais de 50% do nódulo permanece dentro do miométrio.

Tipo 6

Menos de 50% encontra-se dentro do miométrio.

Tipo 7

Mioma pediculado localizado na superfície uterina.

Esses tipos costumam provocar sintomas compressivos, como aumento da frequência urinária e desconforto abdominal.

Tipo 8

Inclui miomas cervicais e outras localizações menos comuns, como os chamados miomas parasitas.

Miomas híbridos

Alguns tumores apresentam contato simultâneo com o endométrio e a serosa.

Nesses casos, a FIGO utiliza classificações combinadas, como:

  • Tipo 2-5;

  • Tipo 3-5.

Essa descrição fornece informações mais precisas para o planejamento terapêutico.

Saiba como a localização influencia os sintomas da miomatose

A relação entre localização e sintomatologia é um dos principais motivos para a utilização da classificação FIGO.

Entenda:

Sangramento uterino anormal

Os miomas com contato endometrial apresentam maior probabilidade de causar sangramento excessivo.

Por isso, os tipos 0, 1, 2 e parte dos tipos 3 estão frequentemente relacionados a menorragia e anemia.

Sintomas compressivos

Os miomas subserosos tendem a crescer em direção à cavidade abdominal.

Dependendo do tamanho, podem comprimir estruturas vizinhas e provocar:

  • Polaciúria;

  • Constipação;

  • Distensão abdominal; e

  • Sensação de esvaziamento incompleto da bexiga.

Fertilidade

A localização também interfere na capacidade reprodutiva.

Os miomas submucosos apresentam associação consistente com redução das taxas de implantação embrionária, gravidez clínica e nascidos vivos.

Já os miomas intramurais maiores podem afetar a fertilidade em alguns casos, enquanto os subserosos parecem exercer impacto mínimo sobre a reprodução.

O papel da ultrassonografia no diagnóstico de miomas uterinos

A ultrassonografia é o principal exame para investigação da miomatose uterina.

Entre suas vantagens estão:

  • Alta sensibilidade diagnóstica;

  • Ampla disponibilidade;

  • Ausência de radiação; e

  • Baixo custo.

Além de identificar os nódulos, o exame permite determinar:

  • Relação com a cavidade uterina;

  • Número de miomas;

  • Classificação FIGO;

  • Dimensões; e

  • Localização.

Além disso, quando existe suspeita de comprometimento da cavidade endometrial, a histerossonografia pode aumentar significativamente a precisão diagnóstica.

Situações em que a ressonância magnética é necessária

Embora não seja um exame de rotina, a ressonância magnética pode ser extremamente útil em situações específicas.

Ela costuma ser indicada para:

  • Diferenciação entre miomatose uterina e adenomiose;

  • Avaliação prévia à embolização uterina;

  • Planejamento cirúrgico complexo;

  • Úteros muito volumosos; e

  • Múltiplos miomas.

A ressonância também fornece informações detalhadas sobre vascularização e características teciduais dos tumores.

Como a classificação orienta o tratamento

O tratamento da miomatose uterina deve ser individualizado.

A escolha depende de fatores como:

  • Localização segundo a FIGO;

  • Intensidade dos sintomas;

  • Número de miomas;

  • Desejo reprodutivo; e

  • Idade da paciente.

Entre as opções de tratamento disponíveis estão:

  • Sistema intrauterino com levonorgestrel;

  • Embolização das artérias uterinas;

  • Tratamento hormonal;

  • Ácido tranexâmico;

  • Análogos de GnRH;

  • Miomectomia;

  • Histerectomia.

Nos miomas submucosos, especialmente tipos 0 e 1, a miomectomia histeroscópica costuma ser a abordagem preferencial. 

Já os miomas intramurais e subserosos podem demandar técnicas laparoscópicas ou laparotômicas.

A importância da classificação para uma abordagem mais precisa

A avaliação dos miomas uterinos evoluiu significativamente nas últimas décadas. 

Atualmente, a combinação entre o sistema PALM-COEIN e a classificação FIGO permite compreender não apenas a causa do sangramento uterino anormal, mas também o impacto clínico de cada lesão.

Na prática, conhecer a localização dos nódulos ajuda a prever sintomas, estimar repercussões sobre a fertilidade e selecionar a melhor estratégia terapêutica. 

Por isso, a correta caracterização da miomatose e da miomatose uterina por meio da ultrassonografia permanece um dos pilares da ginecologia moderna.

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O que são miomas uterinos?

Os miomas uterinos, também chamados de leiomiomas, são tumores benignos formados a partir das células musculares do útero. São muito comuns em mulheres em idade reprodutiva e podem ou não causar sintomas.

O que é miomatose uterina?

Miomatose uterina é o termo utilizado quando a paciente apresenta um ou mais miomas no útero. Os sintomas e a necessidade de tratamento dependem da quantidade, do tamanho e da localização dos nódulos.

O mioma sempre provoca sintomas?

Não. Muitos miomas são descobertos incidentalmente durante exames de rotina. Quando sintomáticos, podem causar sangramento uterino anormal, dor pélvica, aumento do volume abdominal, infertilidade ou sintomas compressivos.

O que significa a classificação FIGO dos miomas?

A classificação FIGO é um sistema internacional que categoriza os miomas conforme sua localização em relação ao endométrio, ao miométrio e à serosa uterina. Essa classificação auxilia no diagnóstico, no planejamento cirúrgico e na escolha do tratamento.

Quais tipos de mioma mais causam sangramento uterino anormal?

Os miomas submucosos, classificados como FIGO 0, 1 e 2, são os mais associados ao sangramento uterino anormal porque apresentam contato direto com a cavidade uterina.

O que é o sistema PALM-COEIN?

O PALM-COEIN é uma classificação da FIGO utilizada para investigar as causas do sangramento uterino anormal. O grupo PALM reúne as causas estruturais, como pólipos, adenomiose, leiomiomas e malignidades, enquanto o grupo COEIN contempla as causas não estruturais.

Qual exame é mais utilizado para diagnosticar miomas uterinos?

A ultrassonografia transvaginal é o principal exame para avaliação dos miomas uterinos. Ela permite identificar o número, o tamanho, a localização dos nódulos e sua classificação FIGO.

Quando a ressonância magnética é indicada?

A ressonância magnética costuma ser reservada para casos complexos, úteros volumosos, múltiplos miomas, suspeita de adenomiose associada ou planejamento cirúrgico mais detalhado. 

Todo mioma precisa de cirurgia?

Não. Muitas pacientes podem ser acompanhadas clinicamente ou tratadas com medicamentos para controle dos sintomas. A cirurgia costuma ser considerada quando há sintomas importantes, infertilidade associada ou crescimento significativo dos miomas.

Existe pós-graduação em Ultrassonografia em Ginecologia e Obstetrícia?

Sim. Para médicos que desejam aprofundar seus conhecimentos em diagnóstico por imagem da saúde da mulher, uma das principais opções é a Pós-Graduação em Ultrassonografia em Ginecologia e Obstetrícia da Inspirali Pós Medicina.

O curso combina conteúdo teórico atualizado com atividades práticas voltadas à realização e interpretação dos principais exames ultrassonográficos utilizados na ginecologia e na obstetrícia.

 

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