Você já parou para pensar que o sexo pode aparecer no consultório sem que o paciente use essa palavra?
Pode estar na pessoa que relata queda da libido depois de iniciar um medicamento.
Na mulher que sente dor durante as relações, mas demora a mencionar o problema.
No homem que procura atendimento por uma queixa aparentemente distante da vida sexual.
No paciente que passou por uma cirurgia e precisa entender como a recuperação poderá afetar sua intimidade.
Enfim... A sexualidade atravessa diferentes dimensões da saúde e da vida. Ainda assim, conversar sobre ela durante uma consulta pode ser difícil tanto para quem procura atendimento quanto para quem está do outro lado da mesa.
Para Ana Canosa, psicóloga clínica, educadora sexual e coordenadora da pós-graduação em Sexualidade Clínica da Inspirali Pós Medicina, esse olhar precisa fazer parte de uma compreensão integral do paciente.
O Dia do Sexo, celebrado informalmente em 6 de setembro, oferece um bom ponto de partida para essa discussão. A data nasceu de uma campanha publicitária bem-humorada, mas acabou abrindo espaço, ao longo dos anos, para conversas mais amplas sobre prazer, prevenção, diversidade, consentimento e saúde sexual.
Para a medicina, ela também provoca uma pergunta importante: os médicos estão preparados para conversar sobre sexualidade com seus pacientes? Continue com a gente e veja as reflexões da professora Ana Canosa.
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Por que 6 de setembro ficou conhecido como o Dia do Sexo?
A história brasileira do Dia do Sexo começou como uma ação de marketing.
Em 2008, a agência Age criou para a fabricante de preservativos Olla uma campanha em defesa de uma data dedicada ao sexo. A provocação partia das comemorações familiares presentes no calendário: se existem Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia das Crianças, seria justo reconhecer que muitas dessas celebrações só existem porque, em algum momento, houve sexo.
A escolha de 6 de setembro também fazia parte da brincadeira. Em números, a combinação entre o dia 6 e setembro, o nono mês do ano, forma 6/9, em uma referência à posição sexual 69.
O tom bem-humorado ajudou a campanha a conquistar espaço no imaginário popular. A data nunca se tornou um feriado oficial, mas permaneceu no calendário informal e passou a ser retomada anualmente por marcas, veículos de comunicação e diferentes organizações.
Com o tempo, a conversa também ganhou novas camadas.
Além da quebra de tabus relacionados às práticas sexuais, o período passou a ser utilizado para discutir sexo seguro, consentimento, prazer feminino, diversidade sexual, relacionamentos e saúde.
Quase duas décadas depois, o Dia do Sexo permite levar a conversa para um ambiente no qual ela nem sempre acontece com naturalidade: o consultório médico.
Sexualidade na medicina: por que esse assunto faz parte do cuidado?
Quando se fala em sexualidade na medicina, algumas especialidades parecem imediatamente relacionadas ao assunto. Ginecologia, Urologia, Psiquiatria, Endocrinologia e Medicina de Família estão entre os exemplos mais evidentes.
Mas essa associação conta apenas parte da história.
A sexualidade humana envolve componentes biológicos, psicológicos, emocionais, relacionais, culturais e sociais. Uma queixa sexual pode estar relacionada a diferentes condições clínicas. Da mesma forma, doenças, medicamentos, cirurgias e intervenções médicas podem repercutir diretamente sobre a vida sexual.
“A sexualidade compõe várias dimensões da vida humana. Tem uma dimensão que é biológica, mas tem uma dimensão que é psicológica, emocional, cognitiva e tem uma dimensão sociocultural”, explica Ana Canosa.
Essa amplitude ajuda a entender por que o assunto interessa a médicos que atuam em campos muito diferentes.
Afinal, independentemente da especialidade, o profissional atende pessoas com desejos, relações, identidades, inseguranças e uma vida sexual que pode ser afetada pelo processo de adoecimento.
Sexualidade é assunto apenas de ginecologistas e urologistas?
Não. E a própria procura dos médicos por formação nessa área mostra isso.
Segundo Ana Canosa, ginecologistas, urologistas, endocrinologistas, psiquiatras e médicos de família aparecem com frequência entre os profissionais interessados em estudar Sexualidade Clínica. Ao mesmo tempo, há médicos de áreas que, à primeira vista, parecem ter uma relação menos evidente com o tema.
Anestesiologistas, cirurgiões gerais, radiologistas, otorrinolaringologistas, intensivistas e profissionais de diferentes especialidades também procuram aprofundamento na área.
Ana identifica três razões principais para esse movimento.
A primeira é o próprio interesse pela complexidade da sexualidade humana.
“As pessoas costumam se apaixonar muito pela profundidade que atingem as reflexões”, conta a coordenadora.
A segunda envolve médicos interessados em construir uma nova frente profissional e atuar diretamente com Sexologia.
A terceira está relacionada à prática clínica que esses profissionais já exercem. Em algum momento, eles percebem que determinadas questões relacionadas à sexualidade estão presentes no atendimento, mas faltam repertório e ferramentas para abordá-las.
“Quando você começa a perceber como profissional de saúde que lhe falta informação e conteúdo para abordar uma dimensão da vida que vai ser impactada por uma medicação, por uma intervenção cirúrgica, por uma orientação, o profissional diz: eu preciso estudar isso aqui um pouquinho”, explica Ana Canosa.
É uma percepção que pode acontecer em praticamente qualquer especialidade.
O que uma cirurgia pode ter a ver com a vida sexual do paciente?
Ana Canosa usa o exemplo de um cirurgião para mostrar como a sexualidade pode aparecer em situações aparentemente distantes da Sexologia.
Imagine um paciente submetido a um procedimento que exigirá meses de recuperação e restrição de mobilidade.
Para uma pessoa cuja atividade sexual ocupa um espaço pouco relevante naquele momento da vida, a abstinência temporária pode gerar impacto limitado. No entanto, para alguém que associa sexo a intimidade, bem-estar, autoestima e vitalidade, a mesma restrição pode ter repercussões emocionais importantes.
“Se esse paciente tem a prática sexual como algo da vida que mobiliza a vitalidade e essa pessoa vai ficar acamada, por exemplo, três meses, qual será o impacto na saúde mental desse indivíduo?”, questiona Ana.
A pergunta mostra por que a sexualidade na medicina não precisa aparecer apenas quando o diagnóstico está diretamente relacionado aos órgãos sexuais ou reprodutivos.
Uma intervenção ortopédica, uma cirurgia abdominal, um tratamento oncológico, uma condição cardiovascular ou uma doença crônica também podem alterar a maneira como alguém se relaciona com o próprio corpo e com sua vida sexual.
Reconhecer isso permite antecipar dúvidas e oferecer orientações mais completas.
Medicamentos também podem interferir na sexualidade
A relação entre tratamento médico e sexualidade também aparece na farmacologia.
Alguns medicamentos podem afetar desejo, excitação, ereção, lubrificação, ejaculação ou orgasmo. Alterações hormonais e determinadas condições clínicas também podem repercutir sobre diferentes fases da resposta sexual.
Por isso, investigar quando uma queixa começou pode fornecer pistas importantes.
A mudança aconteceu antes ou depois do início de determinado medicamento? Existe alguma condição clínica associada? Houve uma cirurgia recente? O paciente percebeu mudanças no desejo, no prazer ou na resposta sexual?
Ana destaca que a compreensão biológica é uma das bases necessárias para abordar as disfunções sexuais.
É preciso conhecer “como as disfunções sexuais aparecem por questões hormonais, questões medicamentosas, quais são os medicamentos que interferem negativamente, quais aqueles que funcionam positivamente, que a gente chama de pró-sexuais”, explica.
O objetivo não é transformar todas as consultas em uma investigação da vida íntima. O ponto está em reconhecer quando a sexualidade pode ter relação com a queixa apresentada ou com a conduta proposta.
Por que o paciente pode não falar sobre sexo durante a consulta?
A ausência de uma queixa sexual explícita não significa necessariamente ausência de dificuldades.
Sexo ainda é cercado por constrangimentos, expectativas sociais, valores culturais e ideias sobre aquilo que seria normal ou adequado.
Ana lembra algumas das perguntas que frequentemente atravessam a experiência das pessoas:
“O que é certo? O que é errado? O que é normal? O que não é normal? O que a gente faz com desejos que são considerados transgressores? Será que eu estou adequado ou inadequado na minha frequência sexual?”
Levar essas dúvidas ao consultório pode ser difícil.
O paciente talvez tenha receio de ser julgado. Pode sentir vergonha. Pode acreditar que aquela questão não pertence à especialidade do médico que está consultando. Em alguns casos, sequer sabe como iniciar a conversa.
A postura profissional pode facilitar ou dificultar esse diálogo. Veja o vídeo a seguir, em que a professora Ana Canosa fala sobre o uso das palavras "normal" e "comum" no atendimento:
Em suma, uma abordagem clínica adequada exige escuta, respeito à privacidade, linguagem apropriada e capacidade de investigar sem emitir julgamentos morais sobre a experiência relatada.
Diversidade sexual também faz parte da formação médica
Conversar sobre sexualidade exige compreender que os pacientes possuem diferentes orientações sexuais, identidades de gênero, configurações afetivas e experiências com o próprio corpo.
Esse conhecimento tem consequências concretas para o atendimento.
Ana destaca, por exemplo, a necessidade de compreender as especificidades relacionadas à saúde sexual da população trans.
“O que é uma pessoa transfeminina, uma pessoa transmasculina? Qual o cuidado que a gente tem que ter de saúde sexual para essa população específica? O que é uma pessoa ter uma orientação sexual? O que isso tem a ver com a identidade de gênero?”, exemplifica.
Conhecer esses conceitos ajuda a reduzir pressupostos durante a consulta e permite formular perguntas mais adequadas.
Presumir automaticamente o gênero da parceria sexual de alguém, por exemplo, pode fechar uma porta antes mesmo de a conversa começar.
O mesmo vale para práticas e comportamentos que fogem das referências pessoais do profissional.
Nem toda prática sexual incomum representa um transtorno
A sexualidade humana também inclui comportamentos e práticas menos convencionais.
Nesse ponto, conhecimento técnico ajuda o médico a diferenciar uma expressão consensual da sexualidade de situações associadas a sofrimento, prejuízo ou risco.
Ana chama atenção justamente para a necessidade de compreender “qual é a diferença disso para transtorno, quando é prejuízo, quando precisa ser tratado de outra maneira”.
A distinção é importante porque evita que comportamentos sejam classificados como patológicos simplesmente por serem pouco familiares ao profissional.
Consentimento, sofrimento, segurança e repercussões sobre a vida do indivíduo são aspectos que precisam entrar nessa avaliação.
Quando o único parâmetro disponível é a experiência pessoal do médico, aumenta o risco de interpretar clinicamente a sexualidade do paciente a partir de valores que pertencem ao próprio profissional.
Falar sobre sexualidade também exige falar sobre comunicação
Nem toda dificuldade sexual começa no corpo.
Para demonstrar isso, Ana Canosa propõe uma situação bastante cotidiana: uma pessoa com dificuldade de dizer não.
Alguém que evita conflitos e tem dificuldade de estabelecer limites com chefes, colegas, familiares ou amigos pode reproduzir o mesmo comportamento dentro de uma relação íntima.
Nas palavras de Ana Canosa:
“Se eu não sei dizer não para o meu chefe, para o meu funcionário, eu não vou saber dizer não para o outro. E isso pode fazer com que a atividade sexual privilegie muito o outro que sabe se impor do que eu, que não sei dizer.”
A consequência pode aparecer na satisfação sexual, no desejo e na própria relação com a intimidade.
Esse exemplo mostra por que queixas sexuais podem exigir uma investigação que ultrapassa anatomia e fisiologia.
Comunicação, autoestima, ansiedade, relacionamentos, violência, imagem corporal, masculinidades, envelhecimento, climatério, identidade e saúde mental podem participar do quadro.
O cuidado com a sexualidade exige diferentes profissionais
A complexidade da sexualidade também torna importante a atuação interdisciplinar.
Dependendo da queixa, uma pessoa pode precisar de acompanhamento de ginecologista, urologista, endocrinologista, psiquiatra, psicólogo, fisioterapeuta pélvico ou profissionais de outras áreas.
Ana Canosa conhece essa dinâmica a partir da própria experiência clínica:
“Eu entendo muito bem a necessidade do atendimento em rede, porque como a Sexologia tem várias dimensões, eu preciso me comunicar com o ginecologista, com o urologista do meu paciente para entender qual foi a orientação, a leitura dos exames. Eu preciso me comunicar com o fisioterapeuta pélvico.”
Uma alteração do desejo, por exemplo, pode envolver fatores emocionais, relacionais, hormonais ou medicamentosos simultaneamente.
Por isso, saber reconhecer os próprios limites e identificar quando um encaminhamento é necessário também integra uma assistência adequada.
Como se aprofundar em Sexualidade Clínica?
Para médicos interessados em avançar nesse campo, a pós-graduação em Sexualidade Clínica da Inspirali Pós Medicina, coordenada por Ana Canosa, aborda a sexualidade a partir de suas dimensões biológicas, psicológicas, emocionais e socioculturais.
A formação possui dois grandes objetivos.
“Primeiro, aprofundar conhecimento sobre sexualidade humana baseada em evidências. E o segundo, instrumentalizar o profissional a fazer terapia sexual”, resume Ana.
O percurso começa pelas bases biológicas da sexualidade feminina e masculina, passando pelas fisiopatologias das disfunções sexuais, questões hormonais e medicamentosas.
Depois, avança pelas dimensões psicológicas e socioculturais, abordando temas como ciclo de vida, masculinidades, diversidade sexual, identidade de gênero e saúde sexual da população trans.
Na sequência, entram as ferramentas de atendimento, diagnóstico da queixa sexual, entrevista inicial e técnicas relacionadas à terapia sexual.
A prática também integra essa formação. Em atendimentos simulados, atores representam casos clínicos e os alunos conduzem as sessões sob supervisão, aproximando o aprendizado das situações que poderão encontrar na vida profissional.
O corpo docente acompanha a natureza interdisciplinar da área, reunindo médicos de diferentes especialidades, psicólogos e profissionais que trabalham diretamente com populações e temas específicos.
Segundo Ana, esse conhecimento pode seguir dois caminhos na carreira do médico:
“O profissional pode continuar na especialidade dele e abrir esse campo de trabalho, fazer terapia sexual, como ele pode só se munir de conteúdo para atender melhor o seu paciente se ele não quiser fazer prática de terapia sexual.”
São possibilidades diferentes, ligadas por um mesmo princípio: compreender que a sexualidade também participa da saúde.
Porque o sexo pode ter ganhado uma data no calendário popular por causa de uma campanha publicitária. No consultório, a sexualidade é assunto durante o ano inteiro.
Quer saber mais sobre a área? Acesse o nosso site e saiba mais sobre a pós-graduação em Sexologia Clínica da Inspirali Pós Medicina.
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Por que a sexualidade é importante na medicina?
Porque faz parte da saúde integral e pode envolver aspectos biológicos, psicológicos, emocionais, relacionais e socioculturais.
Todo médico precisa saber abordar sexualidade?
Sim. Mesmo sem atuar em Sexologia, o médico pode atender pacientes cuja vida sexual seja afetada por doenças, medicamentos, cirurgias ou questões emocionais.
Quais especialidades médicas têm relação com a sexualidade?
Ginecologia, Urologia, Endocrinologia, Psiquiatria e Medicina de Família têm relações evidentes, mas profissionais de diversas especialidades podem se beneficiar desse conhecimento.
Medicamentos podem afetar a vida sexual?
Sim. Alguns medicamentos podem interferir no desejo, na excitação, na ereção, na lubrificação, na ejaculação ou no orgasmo.
Como abordar sexualidade durante uma consulta médica?
Com perguntas adequadas, linguagem respeitosa, privacidade e escuta sem julgamentos sobre as experiências relatadas pelo paciente.
Por que pacientes podem evitar falar sobre sexo no consultório?
Vergonha, medo de julgamento, tabus culturais e dúvidas sobre a abertura do médico para o assunto podem dificultar a conversa.
Toda prática sexual incomum é considerada um transtorno?
Não. A avaliação clínica deve considerar fatores como consentimento, sofrimento, segurança e possíveis prejuízos à vida da pessoa.
Qual é a diferença entre Sexologia Clínica e terapia sexual?
A Sexologia Clínica estuda diferentes dimensões da sexualidade humana. A terapia sexual utiliza técnicas e intervenções direcionadas às queixas e dificuldades relacionadas à sexualidade.
O que um médico pode aprender ao estudar Sexualidade Clínica?
Pode aprofundar conhecimentos sobre disfunções sexuais, aspectos hormonais e medicamentosos, diversidade, identidade de gênero, saúde mental, diagnóstico e abordagem das queixas sexuais.
Para quem é indicada uma pós-graduação em Sexualidade Clínica?
Para médicos que desejam incorporar conhecimentos sobre sexualidade à própria especialidade ou ampliar sua atuação profissional nesse campo.
Editor de conteúdo da Inspirali Pós Medicina | Graduado em Comunicação Social | Mestre e Doutorando em Letras