Um procedimento de cinco a dez minutos realizado por uma das influenciadoras mais conhecidas do Brasil colocou um tema bastante específico da ginecologia no centro das conversas nas redes sociais. Recentemente, Virginia Fonseca, de 27 anos, compartilhou que havia realizado uma sessão de laser íntimo em uma clínica de São Paulo, após três gestações.
No vídeo, Virginia falou de uma situação que muitas mulheres conhecem bem: aquele pequeno escape de urina ao rir. Quem aparece ao seu lado explicando o procedimento é a ginecologista Dra. Fabiane Gama, coordenadora da Pós-Graduação em Ginecologia Regenerativa e Estética Íntima da Inspirali Pós Medicina. Segundo a médica, a laserterapia íntima atua em alterações relacionadas ao envelhecimento feminino, estimulando o colágeno e contribuindo para a tonificação e a lubrificação vaginal.
A repercussão ajuda a trazer para uma conversa mais ampla um campo que vai muito além da estética. Tecnologias como o laser vêm sendo estudadas e utilizadas diante de diferentes queixas relacionadas à saúde íntima feminina, da síndrome geniturinária da menopausa às alterações vulvovaginais e aos sintomas urinários.
Mas como funciona o laser íntimo? Quais são suas possíveis indicações? O que diferencia as tecnologias disponíveis? E, principalmente, o que as evidências científicas permitem afirmar sobre seus resultados? É a partir dessas perguntas que vamos entender o lugar da laserterapia íntima na prática médica atual.
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Laserterapia íntima: do que estamos falando?
O nome pode sugerir um único procedimento, mas a laserterapia íntima reúne diferentes aplicações de energia sobre os tecidos vulvares e vaginais. Na prática ginecológica, entre as tecnologias estudadas estão os lasers de dióxido de carbono, o CO₂, e de érbio, o Er. A radiofrequência também costuma aparecer nessa discussão, embora utilize outro princípio físico.
Esses recursos integram o grupo dos chamados dispositivos baseados em energia e têm sido estudados principalmente para condições relacionadas à síndrome geniturinária da menopausa, à atrofia vulvovaginal, ao ressecamento, à dispareunia e a alguns sintomas urinários. A expansão das aplicações, porém, exige cautela: eficácia e segurança variam conforme a tecnologia, a indicação, o protocolo e as características da paciente. (1)
A aplicação do laser produz um efeito térmico controlado no tecido. Dependendo do equipamento e dos parâmetros utilizados, essa energia pode provocar microlesões ou aquecimento sem ablação, desencadeando uma resposta de reparação tecidual.
Estudos experimentais e histológicos descrevem alterações como proliferação de fibroblastos, reorganização da matriz extracelular, aumento de colágeno, vascularização e mudanças na espessura epitelial. No Er não ablativo, por exemplo, esses efeitos podem ocorrer preservando o epitélio. (2)
É importante, entretanto, separar efeito biológico demonstrável de benefício clínico comprovado. Identificar alterações no colágeno ou no epitélio após uma intervenção não significa automaticamente que haverá melhora duradoura dos sintomas da paciente.
Os termos aparecem muitas vezes como sinônimos, mas há diferenças de abrangência.
O laser vaginal costuma designar especificamente a aplicação intravaginal. Laser íntimo, por sua vez, é uma expressão mais ampla e bastante utilizada para aplicações vulvares e vaginais. Já laserterapia íntima descreve o tratamento realizado com laser nessa região.
Para o médico, mais importante do que a nomenclatura comercial é identificar qual tecnologia será utilizada, em qual tecido, com quais parâmetros e para qual indicação clínica.
A influenciadora Virgínia Fonse realizou procedimento de laser íntimo com a Dra. Fabiane Gama. Fotos; Instagram (reprodução)
Não existe um único laser íntimo. Comprimento de onda, interação com a água dos tecidos, profundidade de ação e forma de entrega da energia diferenciam os equipamentos e influenciam o efeito produzido.
A seguir, falaremos mais sobre cada um deles. Observe:
O laser de CO₂ tem comprimento de onda de aproximadamente 10.600 nm e elevada absorção pela água.
Em aplicações ginecológicas, frequentemente é utilizado de maneira fracionada, criando pontos microscópicos de ação térmica intercalados com áreas preservadas.
É justamente o CO₂ que concentra uma parcela importante das pesquisas sobre síndrome geniturinária da menopausa.
Uma revisão sistemática de 2024 encontrou melhora em alguns parâmetros, como índice de saúde vaginal, secura, ardor e dispareunia. (3)
Assista ao vídeo em que o Dr. Jadson Lener, professor no curso de Ginecologia Regenerativa e Estética Íntima da Inspirali Pós Medicina, fala sobre o tema:
O Er opera em comprimento de onda de aproximadamente 2.940 nm, também fortemente absorvido pela água. Protocolos não ablativos buscam promover aquecimento controlado dos tecidos, desencadeando remodelamento sem produzir o mesmo padrão de ablação associado ao CO₂ fracionado.
A distinção tecnológica não permite concluir que um equipamento seja universalmente superior. Uma revisão sistemática publicada em 2025 avaliou estudos com CO₂, Er e radiofrequência e considerou muito incertos os efeitos do Er nos diferentes desfechos analisados. (1)
A radiofrequência íntima não utiliza laser. Ela emprega ondas eletromagnéticas para gerar aquecimento controlado nos tecidos.
Na ginecologia, equipamentos de radiofrequência vêm sendo estudados para sintomas geniturinários, alterações relacionadas à menopausa e disfunções do assoalho pélvico. Entretanto, as evidências são ainda limitadas em alguns desses cenários. A revisão sistemática de 2025 publicada pela The Menopause Society classificou como muito incertos os efeitos da radiofrequência para os desfechos avaliados na síndrome geniturinária da menopausa. (1)
Quando se fala em laser íntimo, as possíveis aplicações vão além de uma única queixa.
As pesquisas têm investigado o uso dessas tecnologias diante de diferentes alterações da saúde íntima feminina, especialmente aquelas relacionadas ao envelhecimento e à redução dos níveis de estrogênio.
Síndrome geniturinária da menopausa, atrofia vaginal, ressecamento, dispareunia e sintomas urinários estão entre os principais cenários estudados.
Veja, a seguir!
A síndrome geniturinária da menopausa está entre as aplicações mais investigadas. A redução estrogênica pode produzir alterações progressivas nos tecidos vulvares, vaginais e do trato urinário inferior, com sintomas como ressecamento, ardor, desconforto, dispareunia e manifestações urinárias.
É nesse contexto que o laser vaginal passou a ser estudado como uma possibilidade terapêutica, especialmente para pacientes que apresentam limitações ou dificuldades com outras opções.
Uma metanálise publicada em 2025, com sete ensaios randomizados e 302 participantes, não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre o laser de CO₂ e o estrogênio vaginal nos principais índices analisados, incluindo saúde vaginal e função sexual global. (4)
O ressecamento vaginal e a dispareunia aparecem frequentemente entre os sintomas avaliados nos estudos.
Há trabalhos relatando melhora após o laser. Entretanto, quando são priorizados ensaios controlados por procedimento simulado, o cenário se torna menos conclusivo. Uma metanálise de ensaios clínicos randomizados encontrou resultados semelhantes entre CO₂ e procedimento simulado para vários desfechos, incluindo dispareunia, índice de saúde vaginal e função sexual. (5)
Essa diferença ajuda a explicar por que estudos observacionais muito positivos não devem ser interpretados isoladamente.
A incontinência urinária de esforço também passou a integrar as pesquisas com dispositivos baseados em energia.
Uma revisão de ensaios randomizados encontrou melhora de curto prazo dos sintomas após tratamentos com CO₂ e Er, mas ressaltou que os efeitos de longo prazo permaneciam pouco estabelecidos. (6)
O posicionamento da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a Febrasgo, publicado em 2025, também observa que estudos randomizados não confirmaram de maneira consistente diferenças entre dispositivos baseados em energia e placebo para incontinência urinária. (7)
É importante que você, como médico, entenda que nem toda paciente é candidata para esse tipo de tratamento.
De tal forma, é importante ter em mente que a decisão começa antes de ligar o equipamento. É necessário compreender qual é a queixa, sua causa provável e quais tratamentos já foram considerados.
Pontos como história ginecológica e obstétrica, menopausa, sintomas urinários, atividade sexual, medicamentos, tratamentos oncológicos prévios, exame vulvovaginal e avaliação do assoalho pélvico devem fazer parte dessa investigação.
Na dispareunia, por exemplo, atribuir automaticamente a dor à atrofia pode deixar passar vulvodínia, alterações dermatológicas, infecções, hipertonia do assoalho pélvico ou outras condições.
As contraindicações dependem do dispositivo, da tecnologia e da indicação. Por isso, devem ser consideradas as orientações específicas do equipamento e uma avaliação médica individualizada.
Situações como suspeita de malignidade, lesões vulvares ou vaginais ainda não diagnosticadas, infecção ativa, sangramento sem diagnóstico e condições que alterem a cicatrização precisam ser investigadas antes de qualquer intervenção.
Além disso, procedimentos eletivos durante a gestação também exigem abordagem conservadora diante da escassez de evidências específicas.
Na síndrome geniturinária da menopausa, o laser não deve automaticamente substituir tratamentos já estabelecidos.
Lubrificantes e hidratantes vaginais, terapias hormonais locais quando apropriadas e outras estratégias podem integrar o manejo conforme os sintomas, o histórico e as preferências da paciente. Na incontinência urinária de esforço, avaliação e fisioterapia do assoalho pélvico e tratamentos cirúrgicos estabelecidos também precisam entrar na decisão.
O posicionamento brasileiro recomenda apresentar os dispositivos baseados em energia como possibilidades alternativas ou complementares, e não como substitutos automáticos dos tratamentos de primeira linha. (7)
O laser íntimo ganhou espaço dentro de um campo mais amplo da medicina: a ginecologia regenerativa, que reúne abordagens voltadas à saúde, à função e às alterações dos tecidos vulvovaginais.
Nesse contexto, lasers e outras tecnologias baseadas em energia passaram a integrar as possibilidades estudadas para diferentes queixas ginecológicas. Mas essa aproximação também exige entender o que caracteriza a ginecologia regenerativa e qual é o papel dessas tecnologias dentro dela.
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A expressão ginecologia regenerativa costuma abranger procedimentos e tecnologias voltados à recuperação funcional e às alterações dos tecidos vulvovaginais.
É um campo em expansão, mas sua amplitude exige rigor. Reunir diferentes técnicas sob o mesmo nome não significa que todas tenham o mesmo mecanismo de ação, nível de evidência ou indicação.
Se você se interessa pela área, assista ao episódio do InspiraCast em que a Dra. Rosa Figueira, coordenadora da pós-graduação em Ginecologia Regenerativa e Estética Íntima da Inspirali Pós Medicina fala sobre o tema:
Laser de CO₂, Er e radiofrequência fazem parte desse cenário, mas conhecer a operação de um equipamento é apenas uma dimensão da prática.
O médico precisa compreender a fisiologia dos tecidos, reconhecer doenças vulvares e vaginais, estabelecer diagnósticos diferenciais, selecionar pacientes, interpretar criticamente estudos científicos e manejar possíveis complicações. (7)
A evolução tecnológica, portanto, aumenta também a necessidade de formação médica específica.
A fronteira pode ser menos evidente do que parece. Uma paciente pode procurar atendimento incomodada com a aparência da região genital e, durante a avaliação, apresentar uma alteração funcional. Outra pode apresentar anatomia dentro da normalidade e buscar adequação a determinado padrão estético.
O posicionamento da Febrasgo de 2025 é direto nesse aspecto: dispositivos baseados em energia podem ter aplicações funcionais e reparativas, mas seu uso exclusivamente estético na área íntima não deve ser estimulado. (7)
A FIGO também recomenda cautela diante da crescente oferta comercial de procedimentos genitais cosméticos e destaca a necessidade de aconselhamento baseado em evidências, consentimento informado e discussão adequada de riscos e benefícios. (8)
A laserterapia íntima ocupa hoje um espaço de possibilidade terapêutica em evolução. Há sinais de benefício em determinados grupos e sintomas, mecanismos biológicos plausíveis e resultados clínicos favoráveis em parte da literatura. (1) (3) (5)
Para o médico, acompanhar esse campo exige saber lidar com essa zona de incerteza: entender a tecnologia, reconhecer suas possibilidades, identificar seus limites e atualizar a conduta conforme novas evidências surgem.
Para quem deseja aprofundar conhecimentos sobre essas tecnologias e sua aplicação na saúde íntima feminina, a Inspirali Pós Medicina oferece a Pós-Graduação em Ginecologia Regenerativa e Estética Íntima, com formação voltada à prática médica. Conheça o curso e saiba mais sobre a especialização.
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(1) ZERZAN, Nicholas L et al. Energy-based interventions for genitourinary syndrome of menopause: a systematic review of randomized controlled trials and prospective observational studies. Menopause, 1 fev. 2025. Disponível em: < https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39774067/>. Acesso em: 28 set. 2026.
(2) HYMPANOVA, Lucie et al. Effects of non-ablative Er:YAG laser on the skin and the vaginal wall: systematic review of the clinical and experimental literature. International Urogynecology Journal, v. 31, 11 ago. 2020. Disponível em: < https://link.springer.com/article/10.1007/s00192-020-04452-9 >. Acesso em: 28 set. 2026.
(3) PESSOA, Lisieux de Lourdes Martins Nóbrega et al. Laser therapy for genitourinary syndrome of menopause: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trial. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, mai. 2024. Disponível em: < https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39381344/ >. Acesso em: 28 set. 2026.
(4) NASR, Aya Mohamed. et al. CO2 laser versus vaginal estrogen for the treatment of genitourinary syndrome of menopause: a systematic review and meta-analysis. The Journal of Sexology Medicine, 2025. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40622331/>. Acesso em: 28 set. 2026.
(5) PRODROMIDOU, Anastasia et al. CO2 laser therapy versus sham for genitourinary syndrome of menopause: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Personalized Medicine, 2024. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38138921/>. Acesso em: 28 set. 2026.
(6) RANJBAR, Amene et al. Vaginal lasers for treating stress urinary incontinence in women: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Menopausal Medicine. 2023. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36647273/> > Acesso em: 28 set. 2026.
(7) FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA. Energias e novas tecnologias nas disfunções pélvicas e do assoalho pélvico: posicionamento Febrasgo. Femina, 2025. Disponível em: <https://www.febrasgo.org.br/media/k2/attachments/FeminaZ07Z2025Z-Zatualizada.pdf > Acesso em: 28 set. 2026.
(8) INTERNATIONAL FEDERATION OF GYNECOLOGY AND OBSTETRICS. FIGO statement: cosmetic genital procedures. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2025. Disponível em: < https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40471219/ > Acesso em: 28 set. 2026.
O que é laser íntimo?
O laser íntimo é uma aplicação de energia a laser nos tecidos vulvares ou vaginais. Entre as tecnologias estudadas estão o laser de CO₂ e o Er:YAG, utilizados com diferentes parâmetros e mecanismos de ação.
Para que serve a laserterapia íntima?
A laserterapia íntima vem sendo estudada principalmente para sintomas associados à síndrome geniturinária da menopausa, como ressecamento vaginal, desconforto e dispareunia, além de algumas alterações urinárias. A qualidade das evidências varia conforme a indicação.
Como funciona o laser íntimo?
O laser promove um efeito térmico controlado nos tecidos. Essa ação pode desencadear respostas de reparação e remodelamento, incluindo alterações no colágeno e na estrutura do epitélio vaginal.
Qual é a diferença entre laser de CO₂ e Er:YAG?
São tecnologias com comprimentos de onda e formas de interação com os tecidos diferentes. O CO₂ pode ser utilizado de maneira fracionada, enquanto existem protocolos não ablativos com Er:YAG. A escolha depende da indicação, do equipamento e da avaliação médica.
Laser íntimo pode ser usado na menopausa?
A síndrome geniturinária da menopausa é uma das condições mais investigadas nos estudos sobre laser vaginal. Alguns trabalhos mostram melhora de sintomas, mas revisões recentes apontam limitações e baixa certeza para parte das evidências.
Laser íntimo pode tratar ressecamento vaginal e dispareunia?
Esses sintomas aparecem entre os principais desfechos pesquisados. Há estudos com resultados favoráveis, porém ensaios controlados por procedimento simulado apresentam resultados menos conclusivos para algumas medidas.
Laser íntimo trata incontinência urinária?
O uso de lasers para incontinência urinária de esforço vem sendo estudado, mas as evidências ainda apresentam limitações, especialmente quanto aos benefícios de longo prazo. A avaliação da causa e das alternativas terapêuticas é necessária antes de considerar o procedimento.
Laser íntimo e radiofrequência íntima são a mesma coisa?
Não. O laser utiliza energia luminosa em comprimentos de onda específicos, enquanto a radiofrequência emprega ondas eletromagnéticas para produzir aquecimento controlado. Ambas fazem parte das tecnologias baseadas em energia estudadas na ginecologia.
Laser íntimo é seguro?
Os estudos descrevem eventos como desconforto, ardor, dor, corrimento e pequenos sangramentos. Também podem ocorrer complicações mais importantes, especialmente quando há aplicação inadequada de energia. Por isso, indicação, capacitação médica, escolha do equipamento e acompanhamento são fundamentais.