Agosto trouxe movimentos importantes para quem acompanha a Medicina além do consultório. Entre novas regras, avanços terapêuticos e disputas que mexem diretamente com a prática médica, o mês reforçou como ciência, regulação e mercado seguem em constante movimento.
Nesta edição do Radar Clínico, reunimos alguns dos acontecimentos que merecem a atenção do médico: as novas regras para o uso da inteligência artificial na Medicina, as mudanças no mercado da semaglutida, as discussões sobre procedimentos de harmonização orofacial, além de temas que ajudam a entender os rumos da assistência e da profissão no Brasil.
E, porque Medicina também se faz para além dos artigos e protocolos, o Radar abre espaço para dicas culturais e conteúdos para ver, ouvir e acompanhar.
Acompanhe o nosso panorama direto ao ponto para entender o que aconteceu, por que importa e o que vale levar para a vida real do médico.
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O caso Ariana Grande reacende o alerta sobre perda acentuada de peso
A aparência da cantora Ariana Grande voltou a ocupar as redes sociais após imagens recentes da cantora, no videoclipe da música petal, gerarem comentários sobre sua magreza. Junto deles, surgiram especulações envolvendo transtornos alimentares, medicamentos e possíveis doenças, sem confirmação pública dessas hipóteses.
Para os profissionais de saúde, o episódio ajuda a colocar em pauta uma questão que vai além de qualquer diagnóstico sobre a artista: quando a perda de peso deve ser encarada como um sinal de alerta?
Uma redução rápida ou acentuada do peso pode estar associada a diferentes fatores, como alterações metabólicas e hormonais, estresse intenso, transtornos alimentares e uso inadequado de medicamentos.
A pressão estética também interfere nessa percepção, especialmente em um contexto no qual emagrecimento ainda costuma ser associado automaticamente a saúde e sucesso.
Por que isso importa para o médico? Casos que ganham repercussão nas redes chegam ao consultório e influenciam a maneira como pacientes enxergam o próprio corpo. Cabe ao médico abrir espaço para essas conversas, combater a desinformação, reconhecer comportamentos de risco e investigar sinais clínicos que indiquem a necessidade de acompanhamento.
Novas regras para uso de IA na Medicina passaram a valer em 26 de agosto

Se você usa inteligência artificial para estudar, pesquisar, organizar informações ou apoiar a prática profissional, agosto trouxe uma mudança importante.
Em 26 de agosto, entrou em vigor a Resolução CFM nº 2.454/2026, primeiro marco do Conselho Federal de Medicina dedicado especificamente ao uso da IA no exercício da Medicina.
A norma reconhece aplicações da tecnologia no apoio à decisão clínica, na gestão em saúde, na pesquisa científica e na educação médica continuada. Ao mesmo tempo, estabelece um princípio central: a decisão sobre diagnóstico, tratamento e prognóstico permanece sob responsabilidade do médico.
Há limites claros. Diagnósticos, prognósticos e decisões terapêuticas não podem ser comunicados ao paciente exclusivamente por IA. Quando a tecnologia tiver participação relevante no cuidado, o paciente deve ser informado. O uso também precisa respeitar a LGPD, o sigilo profissional e as regras de segurança da informação.
E como aproveitar melhor essas ferramentas mantendo o olhar crítico sobre o que elas entregam?
Preparamos um guia de prompts de IA para médicos, com exemplos práticos para ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity, DeepSeek e outras ferramentas.
Acesse o guia de prompts para médicos
Justiça anula regra que permitia harmonização facial por dentistas
Foto: Fernando Capetillo/Pexels
Uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região anulou a resolução do Conselho Federal de Odontologia que reconhecia a harmonização orofacial como especialidade odontológica, após recurso apresentado pelo CFM e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.
A discussão envolve procedimentos como aplicação de toxina botulínica, preenchimentos faciais, intradermoterapia e lipoplastia facial e coloca novamente em debate os limites de atuação entre médicos e cirurgiões-dentistas.
Por que isso importa para o médico? A decisão fortalece a discussão sobre a defesa do ato médico, especialmente diante da expansão de procedimentos estéticos invasivos realizados por diferentes categorias profissionais.
Brasil amplia concorrência no mercado de semaglutida
Foto: Haberdoedas Photography/Pexels
O mercado brasileiro de medicamentos à base de semaglutida ganhou um novo capítulo em agosto. A Anvisa concedeu registro a uma nova versão de semaglutida injetável, ampliando as opções disponíveis no país.
A autorização se soma à chegada de novas canetas ao mercado e sinaliza maior concorrência em um segmento que cresceu rapidamente, impulsionado principalmente pelo tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.
Para o médico, a ampliação da oferta exige atenção. Novas marcas e apresentações podem aumentar as dúvidas dos pacientes sobre indicação, eficácia, segurança e diferenças entre os produtos, reforçando a importância da prescrição individualizada e do acompanhamento clínico.
SUS destaca resultados de nova terapia para fibrose cística
Foto: João Risi/Ministério da Saúde
Um avanço no tratamento da fibrose cística ganhou destaque em agosto. Segundo o Ministério da Saúde, a terapia disponibilizada pelo SUS pode reduzir em até 85% as internações de pessoas com a doença.
O resultado está relacionado à incorporação dos moduladores da proteína CFTR, medicamentos que atuam em mecanismos relacionados à causa da doença e são indicados para pacientes que atendem a critérios específicos.
A ampliação do acesso representa uma mudança importante no cuidado de uma condição genética crônica que compromete principalmente os sistemas respiratório e digestivo.
Para os médicos, o avanço também reforça a importância da identificação dos pacientes elegíveis e do acompanhamento da resposta ao tratamento.
Saiba mais no portal do Ministério da Saúde
Surto de Ebola por vírus Bundibugyo mantém alerta internacional
Imagem: Center for Disease Control's Public Health/Pexels
A evolução de um surto de Ebola na República Democrática do Congo manteve as autoridades sanitárias internacionais em alerta em agosto. Em 18 de agosto, o Comitê de Emergência da OMS voltou a se reunir para avaliar o cenário.
A atenção se concentra também na espécie Bundibugyo do vírus Ebola, para a qual ainda não há vacina ou tratamento específico aprovado, ampliando os desafios para o controle da transmissão e o manejo dos casos.
Para os médicos, mesmo diante de um evento geograficamente distante, o episódio reforça a importância da vigilância epidemiológica, do reconhecimento de doenças infecciosas emergentes e da capacidade de resposta diante de surtos com potencial de disseminação internacional.
Acompanhe as atualizações no portal da OMS
Prescrição cultural: histórias que ampliam o olhar sobre quem cuidamos
A medicina também se aprende observando pessoas, contextos e histórias. Em agosto, selecionamos três indicações que ajudam a enxergar saúde, doença e cuidado por perspectivas que dificilmente cabem em um prontuário.
Veja, a seguir!
Cem Anos de Solidão também pode ser lido com olhos de médico
Macondo está de volta às telas.
A Netflix estreou em agosto a segunda parte de Cem Anos de Solidão, adaptação da obra-prima de Gabriel García Márquez. Para médicos, há uma camada particularmente interessante nessa história.
Em artigo publicado na Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, o médico Bernardo Bedrikow propôs uma leitura do romance a partir das referências à saúde presentes na obra. Pelagra, escorbuto, lepra, beribéri, peste bubônica, raquitismo, verminose e catarata aparecem ao longo da narrativa, além da inesquecível peste da insônia.
O autor também observa como García Márquez aborda condições de trabalho, assistência aos trabalhadores e conflitos decorrentes da exploração laboral.
A chegada dos novos episódios é um bom convite para conhecer ou revisitar o clássico e perceber como doença, trabalho e condições de vida atravessam a história de Macondo e dos Buendía.
O que a Trilogia da Terra pode ensinar a quem cuida de pessoas?

Antes da doença chegar ao consultório, existe uma vida inteira acontecendo.
É para essas vidas que Itamar Vieira Junior direciona o olhar na Trilogia da Terra, formada por Torto Arado, Salvar o Fogo e Coração sem Medo.
Ao acompanhar personagens atravessados pela desigualdade, violência, ancestralidade e luta por território, os romances revelam diferentes faces do Brasil. Para quem trabalha com saúde, também permitem observar como saneamento, alimentação, trabalho, acesso a serviços públicos, violência e território interferem na vida e no corpo das pessoas.
Trauma, luto e consequências psicológicas de violências que atravessam gerações também fazem parte dessas histórias.
A literatura permite entrar nessas experiências sem reduzi-las a sintomas, diagnósticos ou indicadores sociais. Antes de interpretar o corpo, é preciso saber escutar a história que chegou com ele.
E quando a emergência começa antes do hospital?
Na série Emergência 53, do Globoplay, o atendimento começa onde o paciente está.
A produção acompanha profissionais do SAMU em ocorrências nas ruas, diante de situações nas quais decisões precisam ser tomadas rapidamente e longe da estrutura de um hospital.
Para construir esse universo, o elenco passou três meses acompanhando profissionais e atendimentos reais do SAMU, aproximando a ficção da rotina de quem trabalha na linha de frente da urgência e emergência.
O resultado coloca em cena raciocínio rápido, trabalho em equipe e as relações humanas envolvidas no atendimento pré-hospitalar. Para quem vive a Medicina, também é uma oportunidade de observar pela ficção o que acontece quando conhecimento, preparo e decisão precisam entrar em ação antes mesmo de o paciente chegar à emergência.
Psiquiatra: o que esperar do futuro da especialidade?

Agosto também foi mês de celebrar quem dedica a prática médica ao cuidado da saúde mental. Em 13 de agosto, o Brasil celebrou o Dia do Psiquiatra, data ligada à própria história da especialidade no país: foi nesse dia, em 1966, que nasceu a Associação Brasileira de Psiquiatria, a ABP.
Se a data convida a olhar para a trajetória da profissão, também abre espaço para uma pergunta inevitável: como será o futuro da Psiquiatria?
A resposta passa por inteligência artificial, biomarcadores, medicina de precisão, neuromodulação e acompanhamento digital dos pacientes. Mas passa também por algo muito anterior a qualquer tecnologia: a capacidade de ouvir e interpretar uma história de vida.
Essa combinação aparece nas perspectivas do Dr. Francisco Pascoal Jr., psiquiatra, mestre e doutor em Gerontologia Biomédica e coordenador da pós-graduação em Psiquiatria da Inspirali Pós Medicina.
Para o especialista, a próxima década poderá modificar profundamente a maneira de acompanhar pacientes, diagnosticar transtornos e escolher tratamentos, sem diminuir a responsabilidade do médico na tomada de decisão. Com novas ferramentas e uma quantidade crescente de informações disponíveis, essa responsabilidade tende a aumentar.
No artigo Futuro da Psiquiatria: mais tecnologia e um desafio ainda humano, o Dr. Francisco analisa o que pode mudar na especialidade e quais habilidades continuarão essenciais para o psiquiatra.
Leia o artigo completo e conhecer o futuro da Psiquiatria
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O que mudou nas regras para uso de inteligência artificial na Medicina?
A Resolução CFM nº 2.454/2026 estabeleceu diretrizes específicas para o uso da IA no exercício médico. A decisão sobre diagnóstico, tratamento e prognóstico permanece sob responsabilidade do médico.
O paciente precisa saber quando a IA é utilizada no atendimento?
Sim, quando a tecnologia tiver participação relevante no cuidado. O uso também deve respeitar o sigilo profissional, a LGPD e as normas de segurança da informação.
O que mudou no mercado brasileiro de semaglutida em agosto de 2026?
A Anvisa concedeu registro a uma nova versão de semaglutida injetável, em um cenário de ampliação da oferta e da concorrência entre medicamentos dessa classe no país.
Por que a perda acentuada de peso pode ser um sinal de alerta?
Uma redução rápida ou expressiva do peso pode estar associada a alterações metabólicas e hormonais, transtornos alimentares, estresse intenso, doenças e uso inadequado de medicamentos, entre diferentes possibilidades que exigem avaliação individual.
O que aconteceu com a harmonização orofacial realizada por dentistas?
O TRF1 anulou a resolução do Conselho Federal de Odontologia que reconhecia a harmonização orofacial como especialidade odontológica. A decisão reacendeu a discussão sobre os limites de atuação profissional e a defesa do ato médico.
Qual é a novidade no tratamento da fibrose cística pelo SUS?
O Ministério da Saúde destacou resultados de terapias moduladoras da proteína CFTR disponibilizadas pelo SUS para pacientes elegíveis, com redução de até 85% nas internações.
Por que o surto de Ebola por vírus Bundibugyo preocupa as autoridades de saúde?
A evolução do surto na República Democrática do Congo mantém a vigilância internacional, especialmente porque ainda não há vacina ou tratamento específico aprovado para a espécie Bundibugyo.
Quais tecnologias podem impactar o futuro da Psiquiatria?
Inteligência artificial, biomarcadores, medicina de precisão, neuromodulação e acompanhamento digital estão entre as frentes que podem modificar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes.
Editor de conteúdo da Inspirali Pós Medicina | Graduado em Comunicação Social | Mestre e Doutorando em Letras