Blog da Inspirali Pós Medicina | Inspirali Pós Medicina

O ultrassom pode nos ajudar a entender melhor o lipedema?

Escrito por Dra. Deise Vargas | 03/11/2026

A ultrassonografia pode revelar alterações nos tecidos que ajudam a compreender o lipedema e seus sintomas?

Essa é uma das perguntas que orientam o trabalho da Dra. Deise Vargas, médica radiologista, pesquisadora e criadora da classificação morfológica brasileira do ultrassom no lipedema, que propõe uma nova perspectiva para a avaliação da doença por imagem.

Com 25 anos de experiência em radiologia, a médica é coordenadora da pós-graduação em Ultrassonografia em Dermatologia e Cosmiatria da Inspirali Pós Medicina e desenvolveu a Classificação Dérmica Hipodérmica do Lipedema (LDHC), metodologia que investiga alterações na organização da pele e do tecido adiposo subcutâneo.

Em entrevista ao portal internacional LipedemaScience, a Dra. Deise apresentou as descobertas de sua equipe, discutiu os possíveis mecanismos envolvidos na dor associada ao lipedema e explicou como a ultrassonografia poderá contribuir para o acompanhamento clínico das pacientes.

As pesquisas ainda estão em desenvolvimento, mas os resultados apresentados levantam questões importantes sobre a fisiopatologia da doença e o papel dos exames de imagem em sua avaliação. Saiba mais, a seguir!

Leia também:

O que é o lipedema e por que seu diagnóstico ainda representa um desafio?

O lipedema é uma doença crônica que afeta predominantemente mulheres, caracterizada pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, especialmente nos membros inferiores, podendo também comprometer os braços.

Entre suas manifestações estão a dor, a sensibilidade ao toque, o aumento do volume dos membros, a sensação de peso e a tendência à formação de hematomas.

Embora a doença apresente manifestações clínicas características, compreender os processos que acontecem no interior dos tecidos afetados ainda representa um desafio para a medicina.

Foi justamente a observação de pacientes com esses sintomas que levou a Dra. Deise a aprofundar suas investigações.

Durante mais de duas décadas, a radiologista recebeu mulheres encaminhadas para exames vasculares que relatavam dores intensas nas pernas, aumento do volume dos membros e hematomas espontâneos.

Entretanto, os resultados da ultrassonografia Doppler venosa e arterial frequentemente não revelavam alterações capazes de explicar a intensidade dos sintomas.

Essa contradição despertou uma inquietação que se tornaria o ponto de partida de suas pesquisas.

"Como um exame pode ser considerado normal quando o paciente continua sentindo tanta dor?"

 A pergunta, compartilhada pela médica na entrevista ao LipedemaScience, ajuda a compreender a mudança de perspectiva que orientou seus estudos: investigar também as estruturas da hipoderme, camada localizada abaixo da derme, onde se encontra grande parte do tecido adiposo subcutâneo. 

A Dra. Deise Vargas foi entrevistada pelo portal LipedemaScience, referência internacional na área 

Como funciona o ultrassom para lipedema?

A ultrassonografia para lipedema permite avaliar características do tecido subcutâneo, incluindo sua espessura, ecogenicidade e organização estrutural.

Tradicionalmente, parte das investigações ultrassonográficas se concentra na mensuração da espessura do tecido adiposo. Esse parâmetro pode fornecer informações importantes, mas apresenta limitações quando analisado isoladamente.

Pacientes com obesidade ou edema, por exemplo, também podem apresentar aumento da espessura do tecido subcutâneo, o que dificulta a interpretação desses achados como indicadores específicos de lipedema.

Foi diante dessa limitação que a Dra. Deise começou a investigar outros elementos da arquitetura tecidual.

Em sua pesquisa, passou a avaliar sistematicamente cinco aspectos morfológicos:

Aspecto morfológico O que é avaliado
1. Espessura do tecido Mensuração das camadas avaliadas pelo ultrassom.
2. Ecogenicidade Análise da forma como os tecidos refletem as ondas ultrassônicas.
3. Organização septal Avaliação dos septos que separam os lóbulos adiposos.
4. Interfaces e estruturas fasciais Identificação de alterações nas estruturas de sustentação do tecido.
5. Alterações focais Investigação de modificações localizadas na hipoderme e na junção entre a derme e a hipoderme.

Ao examinar diferentes pacientes, a pesquisadora identificou padrões recorrentes de alterações morfológicas, que deram origem à Classificação Dérmica Hipodérmica do Lipedema.

O que é a classificação LDHC, desenvolvida pela Dra. Deise Vargas?

A LDHC é uma proposta de classificação ultrassonográfica que descreve quatro padrões de alterações morfológicas associados ao lipedema, comparando-os com a arquitetura considerada normal.

O objetivo é estabelecer critérios para documentar de maneira mais sistemática as alterações estruturais observadas no tecido adiposo subcutâneo.

A metodologia considera que a quantidade de gordura presente fornece apenas parte das informações necessárias para compreender a doença. A organização do tecido, as características dos septos e as alterações localizadas também podem oferecer pistas importantes.

Na entrevista, a pesquisadora explica que a proposta da classificação envolve avaliar as diferentes camadas da pele e da hipoderme, buscando identificar alterações que possam ser acompanhadas ao longo do tempo.

Isso abre perspectivas para o uso do ultrassom para lipedema tanto na caracterização morfológica dos tecidos quanto na investigação de possíveis modificações decorrentes da evolução clínica ou dos tratamentos.

Entretanto, a médica ressalta que a LDHC ainda precisa ser validada em populações maiores e por grupos independentes, antes que seu valor diagnóstico e prognóstico possa ser estabelecido com segurança.

O ultrassom pode ajudar a explicar a dor no lipedema?

A dor é uma das manifestações mais relevantes do lipedema e também um dos aspectos que despertam maior interesse científico.

Embora processos inflamatórios sejam frequentemente associados à doença, estudos recentes investigam outros mecanismos que podem contribuir para a intensidade e a persistência da dor.

Entre eles estão as alterações microvasculares, a redução da oxigenação tecidual, a compressão de estruturas nervosas e as modificações fasciais e miofasciais.

Durante suas investigações, a Dra. Deise identificou, em pacientes com o padrão LDHC Tipo 3, pequenos nódulos hiperecoicos localizados na hipoderme, geralmente com menos de um centímetro de diâmetro.

Essas estruturas não eram palpáveis ao exame clínico, mas estavam associadas a dor intensa quando a região era pressionada.

Para compreender a natureza dos nódulos, sua equipe realizou análises histopatológicas de lesões retiradas por biópsia.

Os resultados revelaram alterações como:

Achado histopatológico Descrição
1. Hemorragia no tecido adiposo Presença de sangramento no interior do tecido adiposo.
2. Necrose gordurosa Lesão e morte de células do tecido adiposo.
3. Deposição de hemossiderina Acúmulo de uma substância associada à degradação do sangue.
4. Neoangiogênese imatura Formação de novos vasos sanguíneos ainda pouco desenvolvidos.
5. Alterações inflamatórias Presença de processos inflamatórios e sinais de comprometimento tecidual.

A partir desses achados, os pesquisadores propuseram a hipótese de que processos hemorrágicos e alterações relacionadas à hipóxia e à isquemia possam contribuir para determinados focos de dor no lipedema.

A investigação histopatológica incluiu oito lesões do padrão LDHC Tipo 3, com resultados semelhantes. Apesar da consistência observada nessa série, ainda são necessários estudos mais amplos para esclarecer a frequência, a especificidade e a relevância clínica desses achados.

O que os nódulos identificados no ultrassom revelam sobre o lipedema?

Uma das observações apresentadas pela Dra. Deise envolve o comportamento dos nódulos ao longo do tempo.

Em avaliações realizadas após 30 dias, 60 dias, seis meses e nove meses, a equipe identificou mudanças em sua aparência ultrassonográfica. Algumas lesões diminuíram de tamanho e apresentaram sinais de involução.

Essas alterações sustentam a hipótese de que os nódulos possam representar processos hemorrágicos e reparadores dinâmicos no interior da hipoderme.

Outro ponto importante é a diferenciação em relação aos angiolipomas, tumores benignos constituídos por tecido adiposo e componentes vasculares que também podem provocar dor.

Segundo a pesquisadora, a aparência hiperecoica isolada de um nódulo não permite estabelecer sua origem. Por isso, a avaliação ultrassonográfica deve considerar também as características do tecido ao redor e os demais achados clínicos.

A médica esclarece, ainda, que os pequenos nódulos não palpáveis identificados no padrão LDHC Tipo 3 são diferentes daqueles que as pacientes conseguem perceber ao toque, possivelmente relacionados a outros padrões morfológicos.

Essa distinção reforça a importância de uma avaliação individualizada, especialmente porque diferentes tipos de lesões podem coexistir em uma mesma paciente.

A ultrassonografia para lipedema pode contribuir para o acompanhamento do tratamento?

Além da investigação das alterações estruturais, uma das perspectivas apresentadas pela Dra. Deise Vargas é o uso do ultrassom para monitorar a evolução do tecido lipedematoso.

A possibilidade é particularmente interessante porque modificações no volume corporal nem sempre indicam, por si só, como a arquitetura interna do tecido está se comportando.

Na entrevista ao LipedemaScience, a radiologista destaca o potencial da classificação LDHC para avaliações longitudinais, incluindo o acompanhamento de pacientes submetidas a tratamentos clínicos e cirúrgicos.

Entre as aplicações que poderão ser investigadas estão a avaliação pré-operatória e pós-operatória da lipoaspiração, o monitoramento de alterações teciduais ao longo do tratamento e a correlação entre os achados ultrassonográficos e os sintomas relatados pelas pacientes.

Outra frente de pesquisa envolve os agonistas do receptor GLP-1, medicamentos que podem provocar mudanças significativas na composição corporal.

A questão levantada pela pesquisadora é se essas mudanças também seriam acompanhadas por modificações mensuráveis na organização do tecido adiposo afetado pelo lipedema.

Ainda não há evidências suficientes para estabelecer essa relação, mas a possibilidade aponta para uma aplicação futura da ultrassonografia na avaliação da resposta terapêutica.

Novas pesquisas investigam alterações musculares e fasciais

O trabalho da equipe também está avançando para além das camadas superficiais.

Segundo a Dra. Deise, uma nova linha de investigação procura identificar alterações miofasciais associadas ao lipedema e suas possíveis relações com a sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de força e massa muscular.

A intenção é avaliar se a ultrassonografia poderá detectar modificações estruturais precoces no complexo formado pelos músculos e pelas fáscias, contribuindo para a identificação de pacientes com possível risco de comprometimento funcional.

Essas investigações ainda estão em desenvolvimento, mas ampliam as perguntas científicas sobre os efeitos do lipedema em diferentes estruturas do organismo.


O ultrassom confirma o diagnóstico de lipedema?

Apesar dos avanços descritos, o diagnóstico do lipedema permanece essencialmente clínico.

A avaliação médica deve considerar a história da paciente, a distribuição do tecido adiposo, os sintomas, o exame físico e a investigação de outras condições que possam apresentar manifestações semelhantes.

A ultrassonografia pode fornecer informações complementares sobre a estrutura dos tecidos, mas seus achados isolados ainda não são suficientes para confirmar o diagnóstico, determinar a gravidade da doença ou indicar um tratamento específico.

Esse cuidado é reforçado pela própria Dra. Deise Vargas, que aponta a necessidade de ampliar os estudos multicêntricos, estabelecer valores de referência e demonstrar a reprodutibilidade dos padrões identificados.

Um dos objetivos atuais de sua equipe é verificar se outros médicos, utilizando diferentes equipamentos e trabalhando em diferentes contextos clínicos, conseguem reconhecer consistentemente os mesmos padrões ultrassonográficos.

Para favorecer a aplicação da metodologia, a pesquisadora relata o uso de transdutores lineares convencionais, com frequências de 12 a 15 MHz, desde que associados à técnica adequada e ao conhecimento anatômico necessário.

A padronização e a validação desses procedimentos serão importantes para determinar o futuro papel da classificação LDHC na prática médica.

O futuro do ultrassom para lipedema e a importância da pesquisa científica

As investigações conduzidas pela Dra. Deise Vargas representam uma contribuição brasileira ao estudo ultrassonográfico do lipedema, com potencial para ampliar a compreensão das alterações estruturais associadas à doença.

Ao explorar a relação entre a arquitetura da hipoderme, os processos microvasculares, as lesões hemorrágicas e a dor, suas pesquisas apresentam novas possibilidades para a avaliação e o acompanhamento das pacientes.

O avanço dessas aplicações dependerá, entretanto, da continuidade dos estudos, da validação independente dos resultados e da integração dos achados de imagem com a avaliação clínica.

Para os médicos, esse cenário também reforça a importância da atualização científica e do domínio das técnicas de ultrassonografia, especialmente em áreas nas quais novas evidências estão ampliando as possibilidades de investigação.

Na Inspirali Pós Medicina, a formação médica está diretamente conectada à prática clínica e à produção de conhecimento científico. A presença de profissionais como a Dra. Deise Vargas no corpo docente aproxima os alunos das pesquisas e das discussões que estão contribuindo para o desenvolvimento da medicina.

Conheça a pós-graduação em Ultrassonografia em Dermatologia e Cosmiatria da Inspirali Pós Medicina e amplie seus conhecimentos sobre as aplicações da ultrassonografia na avaliação dos tecidos cutâneos e subcutâneos.

Referência:

LIPEDEMASCIENCE. Can Ultrasound Help Us Better Understand Lipedema? An Interview With Dr. Deise Vargas. 8 out. 2026. Disponível em: https://www.lipedemascience.com/p/can-ultrasound-help-us-better-understand. Acesso em: 28 out. 2026.